sexta-feira, 1 de julho de 2011

Memória de minhas putas tristes - Gabriel Garcia Márquez - Parte 1

Foto minha! Perna Minha!!

Memória de Minhas Putas Tristes (Memoria de mis putas tristes) foi escrito em 2004 por Gabriel García Márquez e publicado em outubro do mesmo ano nos países de língua espanhola.
Narra a história de um nonagenário cronista e crítico musical que, em seu aniversário de 90 anos, pretende presentear a si mesmo com uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Porém, ao vê-la dormindo, não tem coragem de acordá-la e se apaixona por uma garota adormecida. O romance mostra como um idoso teve sua vida tomada pelo medo do amor, e aos 90 anos descobre o verdadeiro prazer da vida. No Brasil, foi publicado pela editora Record em 2005, com tradução de Eric Nepomuceno.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3ria_de_Minhas_Putas_Tristes)


"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma a-dolescente virgem."

"Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costuma-va avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver."

" Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. "

" Por que não encomendou com mais tem-po? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. "

" Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta. "

" Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor. "

" Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: me doí-am os ossos desde a madrugada, meu rabo ardia, e havia trovões de tormenta depois de três meses de seca. "

" Quer dizer, me digo agora, que desde muito menino tive mais bem formado o sentido do pudor social que o da morte. "

" Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. "

" A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam. "

" Minha idade sexual não me preocupou nunca, porque meus poderes não dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porquê. "

" Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. "

" Nunca participei em farras de grupo nem em contubérnios públicos, nem compar-tilhei segredos nem contei uma só aventura do corpo ou da alma, pois desde jovem me dei conta de que nenhuma é impune. "

" Nunca tive grandes amigos, e os poucos que chegaram perto disso estão em Nova York. Quer dizer: mortos, pois é para lá que eu acho que vão as almas penadas para não digerir a verdade de sua vida passada. "

" Você tem uma sorte do demónio, disse ela. Encontrei uma franguinha melhor do que você queria, mas tem um porém: ela tem uns catorze anos. Eu não me importo em trocar fraldas, disse a ela em tom de burla e sem entender seus motivos. Não é por você, disse ela, mas quem vai cumprir por mim os três anos de cadeia? "

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector - Parte 3



"Como é luxuoso este silêncio. É acumulado de séculos. É um silêncio de barata que olha. O mundo se me olha. Tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto as coisas sabem as coisas. As coisas sabem tanto as coisas que a isto.., a isto chamarei de perdão, se eu quiser me salvar no plano humano. É o perdão em si. Perdão é um atributo da matéria viva."

" É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas." 

" Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva? "

"O inferno, porque o mundo não me tinha mais sentido humano, e o homem não me tinha mais sentido humano. E sem essa humanização e sem a sentimentação do mundo - eu me apavoro."

"Para construir uma alma possível - uma alma cuja cabeça não devore a própria cauda - a lei manda que só se fique com o que é disfarçadamente vivo. E a lei manda que, quem comer do imundo, que o coma sem saber. Pois quem comer do imundo sabendo que é imundo - também saberá que o imundo não é imundo. É isso?"

" - Ah, não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos - mas não retires tua mão, mesmo que eu já saiba que encontrar tem que ser pelo caminho daquilo que somos, se eu conseguir não me afundar definitivamente naquilo que somos."

"Eu a via toda, à barata.
A barata é um ser feio e brilhante. A barata é pelo avesso. Não, não, ela mesma não tem lado direito nem avesso: ela é aquilo. O que nela é exposto é o que em mim eu escondo:
de meu lado a ser exposto fiz o meu avesso ignorado. Ela me olhava. E não era um rosto. Era uma máscara. Uma máscara de escafandrista. Aquela gema preciosa ferruginosa. Os dois olhos eram vivos como dois ovários. Ela me olhava com a fertilidade cega de seu olhar. Ela fertilizava a minha fertilidade morta. Seriam salgados os seus olhos? Se eu os tocasse - já que cada vez mais imunda eu gradualmente ficava - se eu os tocasse com a boca, eu os sentiria salgados?
Eu já havia experimentado na boca os olhos de um homem e, pelo sal na boca, soubera que ele chorava.
Mas, ao pensar no sal dos olhos negros da barata, de súbito recuei de novo, e meus lábios secos recuaram até os dentes: os répteis que se movem sobre a terra! Na reverberação parada da luz do quarto, a barata era um pequeno crocodilo lento. O quarto seco e vibrante. Eu e a barata pousadas naquela secura como na crosta seca de um vulcão extinto. Aquele deserto onde eu entrara, e também nele descobria a vida e o seu sal."

"A balança tinha agora um prato único. Nesse prato estava a minha profunda recusa de baratas. Mas agora “recusa de baratas” eram meras palavras, e eu também sabia que na hora de minha morte eu também não seria traduzível por palavra." inefável!!!!

" - Entende, morrer eu sabia de antemão e morrer ainda não me exigia. Mas o que eu nunca havia experimentado era o choque com o momento chamado “já”. Hoje me exige hoje mesmo. Nunca antes soubera que a hora de viver também não tem palavra. A hora de viver, meu amor, estava sendo tão já que eu encostava a boca na matéria da vida. A hora de viver é um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par. Dois portões se abriam e nunca tinham parado de se abrir. Mas abriam-se continuamente para - para o nada?
      A hora de viver é tão infernalmente inexpressiva que é o nada. Aquilo que eu chamava de “nada” era no entanto tão colado a mim que me era... eu? e portanto se tornava invisível como eu me era invisível, e tornava-se o nada. As portas como sempre continuavam a se abrir.
      Finalmente, meu amor, sucumbi. E tornou-se um agora.


Sempre Clarice para o  meu amor!!

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa - Parte 3

"Couro ruim é que chama ferrão de ponta."

"Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um joão-de-barro cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau-d’Arco, quase na divisa baiana, com nossa outra metade dos sócandelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu iavoava reto para ele... Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma.

"Todos tretam por tal regra: proseiam de ruins, para mais se valerem, porque a gente ao redor é duro dura"

"A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei!"

"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não eso sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam."

"Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro gosto! A foa dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza."

" Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir."

"De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina...

"Bom era ouvir o mom das vacas devendo seu leite."

"Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam." (ohhhhhh amoooooo os advébios que o sr constrói!!!!)   


" Diadorim, duro sério,o bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremedvel extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. Quase que sem menos era assim: a gente chegava num lugar, ele falava para eu sentar; eu sentava. Não gosto de ficar em pé. Eno, depois, ele vinha sentava, sua vez. Sempre mediante mais longe. Eu não tinha coragem de mudar para mais perto. Só de mim era que Diadorim às vezes parecia ter um espevito de desconfiança; de mim, que era o amigo! Mas, essa ocaso, ele estava ali, mais vindo, a meia-mão de mim. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo, num espairecer de contentamento, deixava de pensar. Mas suce- dia uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. Só que coração meu podia mais. O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende."

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão Veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2006.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector - Parte 2

"E foi numa das paredes que num movimento de surpresa e recuo vi o inesperado mural.Na parede caiada, contígua à porta - e por isso eu ainda não o tinha visto - estava quase em tamanho natural o contorno a carvão de um homem nu, de uma mulher nua, e de um cão que era mais nu do que um cão. "

"O quarto divergia tanto do resto do apartamento que para entrar nele era como se eu antes tivesse saído de minha casa e batido a porta. O quarto era o oposto do que eu criara em minha casa, o oposto da suave beleza que resultara de meu talento de arrumar, de meu talento de viver, o oposto de minha ironia serena, de minha doce e isenta ironia: era uma violentação das minhas aspas, das aspas que faziam de mim uma citação de mim. O quarto era o retrato de um estômago vazio."

"Mas ali o sol não parecia vir de fora para dentro: lá era o próprio lugar do sol, fixado e imóvel numa dureza de luz como se nem de noite o quarto fechasse a pálpebra. "

"Percebi então que estava irritada. O quarto me incomodava fisicamente como se no ar ainda tivesse até agora permanecido o som do riscar do carvão seco na cal seca. O som inaudível do quarto era como o de uma agulha rodando no disco quando a faixa de música já acabou. "

" É que apesar de já ter entrado no quarto, eu parecia ter entrado em nada. Mesmo dentro dele, eu continuava de algum modo do lado de fora. Como se ele não tivesse bastante profundidade para me caber e deixasse pedaços meus no corredor, na maior repulsão de que eu já fora vítima: eu não cabia."

"Forcei-me a me lembrar que também aquele quarto era posse minha, e dentro de minha casa: pois, sem sair desta, sem descer nem subir, eu havia caminhado para o quarto. A menos que tivesse havido um modo de cair num poço mesmo em sentido horizontal, como se houvessem entortado ligeiramente o edifício e eu, deslizando, tivesse sido despejada de portas a portas para aquela mais alta."

"
Eu já havia conhecido anteriormente o sentimento de lugar. Quando era criança, inesperadamente tinha a consciência de estar deitada numa cama que se achava na cidade que se achava na Terra que se achava no Mundo. Assim como em criança, tive então a noção precisa de que estava inteiramente sozinha numa casa, e que a casa era alta e solta no ar, e que esta casa tinha baratas invisíveis."

"Mas para poder sair do canto onde, ao ter entreaberto a porta do guarda-roupa, eu mesma me encurralara, teria antes que fechar a porta que me barrava contra o pé da cama: ali estava eu sem passagem livre, encurralada pelo sol que agora me ardia nos cabelos da nuca, num forno seco que se chamava dez horas da manhã."

" É que nesses instantes, de olhos fechados, eu tomava consciência de mim assim como se toma consciência de um  sabor: eu toda estava com sabor de aço e azinhavre, eu toda era ácida como um metal na língua, como planta verde esmagada, meu sabor me veio todo à boca."


"Toma, toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! tenho nojo e maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando."

"Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. "
"A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido."

"Eu recuara até a medula de meus ossos, meu último reduto. Onde, na parede, eu estava tão nua que não fazia sombra."

"Enfim o corpo, embebido de silêncio, se apaziguava. o alívio vinha de eu caber no desenho mudo da caverna"

" Eu, corpo neutro de barata, eu com uma vida que finalmente não me escapa pois enfim a vejo fora de mim - eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede sou cada pedaço infernal de mim - a vida em mim é tão insistente que se me partirem, como a uma lagartixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo. Sou o silêncio gravado numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei."

Sagarana - Guimarães Rosa - Parte 1

Poty Lazarotto
[Ilustração do livro Sagarana] , s.d.
O Burrinho Pedrês

" Manhã noiteira, sem sol, com uma umidade de melar por dentro as roupas da gente. A serra neblinava, açucarada, e lá pelas cabeceiras o tempo ainda devia de estar pior. "

"Passa rente aos bois-de-carro - pesados eunucos de argolas nos chifres, que remastigam,  subalternos, como se cada um trouxesse ainda ao  pescoço a canga, e que mesmo disjungidos se mantêm paralelos, dois a dois. "

"Francolim, você hoje está analfabeto. Pensa mais,
Francolim!" 

" Todo-o-mundo aqui vale o feijão que come" 

" Estampa de boi brioso. Quando corre, bate caixa, quando anda, amassa o chão!"  

"E, agora, pronta de todo está ela ficando, cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto, sem-querer e imitativo, e que os cavalos gingam bovinamente." (Bovinamente = Advérbio de modo!! Quase morro com essas construções, por mim, perfeitamente aceitáveis )

" Escuta: 'para bezerro mal desado, cauda de vaca é maminha' ... Esta vida é engraçada. Galinha, tem de muita cor, mas todo ovo é branco" 

" O senhor sabe que boi não entra na gente assim a toa, sem avisar: mesmo quando eles já estão fazendo gatimanha, sapateando, abrindo terra e soprando em riba, a gente precisa é de não apartar os olhos dos olhos deles ... "

"Era assim uma cantiga sorumbática¹, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim ... Mas, linda, linda como uma alegria chorando, uma alegria judiada, que ficou triste de repente:
... "Ninguém de mim
ninguém de mim
tem compaixão... "

" Porque seu Saulinho não sabia ler, mas gostava de receber cartas da mulher, e não deixava ninguém ler para ele: abria e ficava só olhando as letras, calado e alegre, um tempão ... " 

"Arístides bebeu sua cachaça, que não foi brinquedo, mas ninguém não falou, porque o Aristides se estava com olho-de-choro ... Até eu mesmo. Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher ..."

" É, mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querencia... Boi apaixonado, que desamana, vira fera ... Saudade em boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente ... "

" É cisma. Vou beber outro gole, para ficar com mais caráter. "

" Alguma, não! Razão inteira, porque estou representando seu Major, por ordem dele, e meu revólver pode parir cinco filhotes, para mamarem no couro de quem trucar de-falso! "


¹ adj. e s.m. Que ou aquele que é sombrio, carrancudo, tristonho, melancólico, taciturno.


A volta do marido pródigo

Poty Lazarotto
[Ilustração do livro Sagarana] , s.d.
 "Quem não tem brio engorda!"

"É bom ... Carece de tomar jeito! ... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura ... Precisa de dar exemplo aos outros ... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar ... que tem rompante ... Até servia para fazer o papel do moço-queacaba-casando, no teatro ..."

" Na manhã depois, vendo que o marido não ia trabalhar, esperou ela o milagre de uma nova lua-de-mel. Enfeitou-se  melhor, e, silenciosa, com quieta vigilância, desenrolava, dedo a dedo, palmo a palmo, o grande jogo, a teia sorrateira que às mulheres ninguém precisa de ensinar."

"Procurou assento, recostou-se, e fechou os olhos, saboreando a trepidação e sonhando - sonhos errados por excesso - com o determinado ponto, em cidade, onde odaliscas veteranas apregoavam aos transeuntes, com frinéica desenvoltura, o amor: bom, barato e bonito, como o queriam os deuses."



"As aventuras de Lalino Salãthiel na capital do país foram bonitas, mas só podem ser pensadas e não contadas, porque no meio houve demasia de imoralidade."

"Viver de graça é mais barato... É o que dá mais..."

"Este mundo é que está mesmo tão errado, que nem paga a pena a gente querer consertar..."

"Devoto por hábito e casto por preguiça, vive enfurnado, na beira do rio, pescando e jogando marimbo, quando encontra parceiros."

"O Juca passou inda agorinha no caminhão, e disse que o seu Laio estava lá, numa cachaça airada, no botequim velho que foi da empresa, com outros companheiros, fazendo sinagoga."

"No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo."