terça-feira, 31 de maio de 2011

Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector - Parte 2

"E foi numa das paredes que num movimento de surpresa e recuo vi o inesperado mural.Na parede caiada, contígua à porta - e por isso eu ainda não o tinha visto - estava quase em tamanho natural o contorno a carvão de um homem nu, de uma mulher nua, e de um cão que era mais nu do que um cão. "

"O quarto divergia tanto do resto do apartamento que para entrar nele era como se eu antes tivesse saído de minha casa e batido a porta. O quarto era o oposto do que eu criara em minha casa, o oposto da suave beleza que resultara de meu talento de arrumar, de meu talento de viver, o oposto de minha ironia serena, de minha doce e isenta ironia: era uma violentação das minhas aspas, das aspas que faziam de mim uma citação de mim. O quarto era o retrato de um estômago vazio."

"Mas ali o sol não parecia vir de fora para dentro: lá era o próprio lugar do sol, fixado e imóvel numa dureza de luz como se nem de noite o quarto fechasse a pálpebra. "

"Percebi então que estava irritada. O quarto me incomodava fisicamente como se no ar ainda tivesse até agora permanecido o som do riscar do carvão seco na cal seca. O som inaudível do quarto era como o de uma agulha rodando no disco quando a faixa de música já acabou. "

" É que apesar de já ter entrado no quarto, eu parecia ter entrado em nada. Mesmo dentro dele, eu continuava de algum modo do lado de fora. Como se ele não tivesse bastante profundidade para me caber e deixasse pedaços meus no corredor, na maior repulsão de que eu já fora vítima: eu não cabia."

"Forcei-me a me lembrar que também aquele quarto era posse minha, e dentro de minha casa: pois, sem sair desta, sem descer nem subir, eu havia caminhado para o quarto. A menos que tivesse havido um modo de cair num poço mesmo em sentido horizontal, como se houvessem entortado ligeiramente o edifício e eu, deslizando, tivesse sido despejada de portas a portas para aquela mais alta."

"
Eu já havia conhecido anteriormente o sentimento de lugar. Quando era criança, inesperadamente tinha a consciência de estar deitada numa cama que se achava na cidade que se achava na Terra que se achava no Mundo. Assim como em criança, tive então a noção precisa de que estava inteiramente sozinha numa casa, e que a casa era alta e solta no ar, e que esta casa tinha baratas invisíveis."

"Mas para poder sair do canto onde, ao ter entreaberto a porta do guarda-roupa, eu mesma me encurralara, teria antes que fechar a porta que me barrava contra o pé da cama: ali estava eu sem passagem livre, encurralada pelo sol que agora me ardia nos cabelos da nuca, num forno seco que se chamava dez horas da manhã."

" É que nesses instantes, de olhos fechados, eu tomava consciência de mim assim como se toma consciência de um  sabor: eu toda estava com sabor de aço e azinhavre, eu toda era ácida como um metal na língua, como planta verde esmagada, meu sabor me veio todo à boca."


"Toma, toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! tenho nojo e maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando."

"Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. "
"A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido."

"Eu recuara até a medula de meus ossos, meu último reduto. Onde, na parede, eu estava tão nua que não fazia sombra."

"Enfim o corpo, embebido de silêncio, se apaziguava. o alívio vinha de eu caber no desenho mudo da caverna"

" Eu, corpo neutro de barata, eu com uma vida que finalmente não me escapa pois enfim a vejo fora de mim - eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede sou cada pedaço infernal de mim - a vida em mim é tão insistente que se me partirem, como a uma lagartixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo. Sou o silêncio gravado numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei."

Sagarana - Guimarães Rosa - Parte 1

Poty Lazarotto
[Ilustração do livro Sagarana] , s.d.
O Burrinho Pedrês

" Manhã noiteira, sem sol, com uma umidade de melar por dentro as roupas da gente. A serra neblinava, açucarada, e lá pelas cabeceiras o tempo ainda devia de estar pior. "

"Passa rente aos bois-de-carro - pesados eunucos de argolas nos chifres, que remastigam,  subalternos, como se cada um trouxesse ainda ao  pescoço a canga, e que mesmo disjungidos se mantêm paralelos, dois a dois. "

"Francolim, você hoje está analfabeto. Pensa mais,
Francolim!" 

" Todo-o-mundo aqui vale o feijão que come" 

" Estampa de boi brioso. Quando corre, bate caixa, quando anda, amassa o chão!"  

"E, agora, pronta de todo está ela ficando, cá que cada vaqueiro pega o balanço de busto, sem-querer e imitativo, e que os cavalos gingam bovinamente." (Bovinamente = Advérbio de modo!! Quase morro com essas construções, por mim, perfeitamente aceitáveis )

" Escuta: 'para bezerro mal desado, cauda de vaca é maminha' ... Esta vida é engraçada. Galinha, tem de muita cor, mas todo ovo é branco" 

" O senhor sabe que boi não entra na gente assim a toa, sem avisar: mesmo quando eles já estão fazendo gatimanha, sapateando, abrindo terra e soprando em riba, a gente precisa é de não apartar os olhos dos olhos deles ... "

"Era assim uma cantiga sorumbática¹, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim ... Mas, linda, linda como uma alegria chorando, uma alegria judiada, que ficou triste de repente:
... "Ninguém de mim
ninguém de mim
tem compaixão... "

" Porque seu Saulinho não sabia ler, mas gostava de receber cartas da mulher, e não deixava ninguém ler para ele: abria e ficava só olhando as letras, calado e alegre, um tempão ... " 

"Arístides bebeu sua cachaça, que não foi brinquedo, mas ninguém não falou, porque o Aristides se estava com olho-de-choro ... Até eu mesmo. Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher ..."

" É, mas a pior de todas é a arrancada do gado triste, querendo a querencia... Boi apaixonado, que desamana, vira fera ... Saudade em boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente ... "

" É cisma. Vou beber outro gole, para ficar com mais caráter. "

" Alguma, não! Razão inteira, porque estou representando seu Major, por ordem dele, e meu revólver pode parir cinco filhotes, para mamarem no couro de quem trucar de-falso! "


¹ adj. e s.m. Que ou aquele que é sombrio, carrancudo, tristonho, melancólico, taciturno.


A volta do marido pródigo

Poty Lazarotto
[Ilustração do livro Sagarana] , s.d.
 "Quem não tem brio engorda!"

"É bom ... Carece de tomar jeito! ... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura ... Precisa de dar exemplo aos outros ... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar ... que tem rompante ... Até servia para fazer o papel do moço-queacaba-casando, no teatro ..."

" Na manhã depois, vendo que o marido não ia trabalhar, esperou ela o milagre de uma nova lua-de-mel. Enfeitou-se  melhor, e, silenciosa, com quieta vigilância, desenrolava, dedo a dedo, palmo a palmo, o grande jogo, a teia sorrateira que às mulheres ninguém precisa de ensinar."

"Procurou assento, recostou-se, e fechou os olhos, saboreando a trepidação e sonhando - sonhos errados por excesso - com o determinado ponto, em cidade, onde odaliscas veteranas apregoavam aos transeuntes, com frinéica desenvoltura, o amor: bom, barato e bonito, como o queriam os deuses."



"As aventuras de Lalino Salãthiel na capital do país foram bonitas, mas só podem ser pensadas e não contadas, porque no meio houve demasia de imoralidade."

"Viver de graça é mais barato... É o que dá mais..."

"Este mundo é que está mesmo tão errado, que nem paga a pena a gente querer consertar..."

"Devoto por hábito e casto por preguiça, vive enfurnado, na beira do rio, pescando e jogando marimbo, quando encontra parceiros."

"O Juca passou inda agorinha no caminhão, e disse que o seu Laio estava lá, numa cachaça airada, no botequim velho que foi da empresa, com outros companheiros, fazendo sinagoga."

"No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo."



segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sagarana - Guimarães Rosa - CARTA DE GUIMARÃES ROSA A JOÃO CONDÉ, REVELANDO SEGREDOS DE SAGARANA

Sagarana

Guimarães Rosa
Do Stockler Vestibulares* 

          Escrita em 1937, a obra "Sagarana" foi submetida a um concurso literário (Prêmio Graça Aranha, da Editora José Olympio) em que ficou em segundo lugar. O autor usou o pseudônimo de Viator, que, em latim, significa "viandante". A obra trazia quinhentas páginas. Com o tempo, foi reduzida para cerca de trezentas e publicada em 1946.
            O título é um hibridismo (união de dois radicais de línguas distintas): "saga", de origem germânica, significa "canto heróico"; e "rana", de origem indígena, quer dizer "à maneira de" ou "espécie de".
           As estórias desembocam sempre numa alegoria, e o desenrolar dos fatos prende-se a um sentido ou "moral", à maneira das fábulas. As epígrafes, que encabeçam cada conto, condensam sugestivamente a narrativa e são tomadas da tradição mineira, dos provérbios e cantigas do sertão.

(http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u20.jhtm) 

CARTA DE GUIMARÃES ROSA A JOÃO CONDÉ, REVELANDO SEGREDOS DE SAGARANA
Prezado João Condé,

        Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos dêste seu exemplar de "Sagarana", uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível - o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu  autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério. Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé. Assim, pois, em 1937 - um dia, outro dia, outro dia... - quando chegou a hora de o "Sagarana" ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nêle poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-domundo. Tinha de pensar, igualmente, na palavra "arte", em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E - sendo meu - uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto. Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições - no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquêle sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe. Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Eluard: . . . "o peixe avança nágua, como um dedo numa luva" ... Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas ... ): além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso? ! Aquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia. um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior - sem convenções, "pôses" - dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores  estalarem sob o ráio, e cada talo
do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a sêca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, "revendo" paisagens da minha terra, e aboiando
para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito - quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 f ôlhas - em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi "retrabalhado", em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma dactilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era "Sezão"; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: "Contos (título provisório, a ser substituido) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.

Como já disse, as histórias eram doze:

I) - O BURRINHO PEDREZ - Peça não-profana, mas sugerida por um acontecimento real,
passado em
minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo
de vaqueiros, num córrego cheio.
II) - A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO - A
menos "pensada" das novelas do "Sagarana" a única que foi
pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não
foi manipulada, em 1945.
III) - DUELO - Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a
história foi medita8
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da e "vivida", durante um mês, para ser escrita em uma
semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.
IV) - SARAPALHA - Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela,
talvez, a de que
menos gosto.
V) - QUESTÕES DE FAMILIA - História fraca,
sincera demais, meio autobiográfica, mal realizada. Foi expelida do livro e definitivamente
destruída.
VI) - (UMA HISTORIA DE AMOR - Um belo
tema, que não consegui desenvolver razoávelmente. Teve
o mesmo destino da novela anterior).
VII) - MINHA GENTE - Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma
pachorra e um
descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.
VIII) - CONVERSA DE BOIS - Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, nêste
livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois
com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi
o enrêdo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr
em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo
caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva,
outra história (n. 2) - também com carro, bois, carreiro e
guia - totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da
outra, da anterior. Em 1945,
sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão préhistórica, que f ôra definitivamente
sacrificada.
IX) - BICHO MAU - Deixou de figurar no "Sagarana", porque não tem parentesco
profundo com as nove
histórias dêste, com as quais se amadrinhara, apenas por
pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é
outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos,
talvez seja escrito.
X) - CORPO FECHADO - Talvez seja a minha
predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais conviveu
10
"Humanamente" comigo, e cheguei a desconfiar de que ele
pudesse ter uma qualquer espécie de existéncia. Assim, viveu
ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que nao aproveitei
no papel, porque não tinham valor de parábolas, não "transcendiam".
XI) - SÃO MARCOS - Demorada para escrever,
pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito
afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.
XII) - A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRACA - História mais séria, de certo modo
síntese e chave
de tôdas as outras, não falarei sôbre o seu conteúdo. Quanto
à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o
coméço do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.
Por ora, Conde, aqui está o que eu pude relembrar,
acerca do "Sagarana". Se Você quiser, eu poderei contar,
mais tarde -, num exemplar da 2." edição - algumas passagens históricas, ocorridas entre o
dia 31 de dezembro de
1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora umversal. Serve?
Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa.
('Transcrita do livro Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai,
de Vilma Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983,
p. 331 a 337.)





sábado, 28 de maio de 2011

Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector - Parte 1

    

       A Paixão segundo G. H., romance de 1964 de Clarice Lispector, é uma obra inquietante, angustiante e, ao mesmo tempo, intrigante. Nesse romance, Clarice Lispector consegue transmitir ao leitor as preocupações de ordem emocional da personagem G. H., uma mulher bem-sucedida profissionalmente, mas que não conhece a sua própria identidade e, por isso, vai em busca do conhecimento interior (...).

(http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_paixao_segundo_g_h)
  
"Este livro é como um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.
Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria."

Clarice Lispector


"Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? "


"Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."


"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."


"Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando."


" Toda compreensão súbita se parece muito com uma aguda incompreensão. Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. "


"Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."


"Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei. Por enquanto não sei: só ao me reviver é que vou viver."


"Há três mil anos desvairei-me, e o que restaram foram fragmentos fonéticos de mim." 


" É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno."


" Sou agradável tenho amizades sinceras, e ter consciência disso faz com que eu tenha por mim uma amizade aprazível o que nunca excluiu um certo sentimento irônico por mim mesma, embora sem perseguições."


“O resto era o modo como pouco a pouco eu havia me transformado na pessoa que tem o meu nome. E acabei sendo o meu nome.”


"Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades.”

. A outra - a incógnita e anônima - essa outra minha existência que era apenas profunda, era o que provavelmente me dava a segurança de quem tem sempre na cozinha uma chaleira em fogo baixo: para o que desse e viesse, eu teria a qualquer momento água fervendo.
Só que a água nunca fervera. Eu não precisava de violência, eu fervilhava o suficiente para a água nunca ferver nem derramar.”


“De mim irradiava-se a espécie de bondade que vem da indulgência pelos próprios prazeres e pelos prazeres dos outros. Eu comia delicadamente o meu, e delicadamente enxugava a boca com o guardanapo.”


“ Desde já calculo que aquilo que de mais duro minha vaidade terá de enfrentar será o julgamento de mim mesma: terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.”


Paixão segundo G.H. p. 4 - 21

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ai de ti, Copacabana - Rubem Braga

Meus pés em Copacabana
" Talvez seja bom que os homens não se sintam muito seguros sobre a terra , e que o proprietário do imóvel  possa desconfiar de que ele não é tão imóvel assim; que há diabos loucos no fundo do chão e que eles podem promover terríveis anarquias." (Terremoto p. 18)

                                             ***

" O sol (...). Não corta o céu pela metade, como deveria ser seu dever: cada dia  contenta  com uma fatia menor" ( O sol dos Incas p. 20)
                                             ***

"  Pergunto ao lavrador que trabalha como se chamam essas flores lindas que nascem no trigal. Ele me olha com admiração por ver um homem tão ignorante e responde: yuyo. Tenho um ataque de inteligência e e traduzo: 'joio'. " ( Descoberta p. 23)

                                            ***

" Pego as pequena luvas pretas. Têm um ar abandonado e infeliz, como toda luva esquecida pelas mãos." (As Luvas p.25)

                                                                        ***

"Le gusta Chile? Se acostumbra?" - São as perguntas ingênuas que todo chileno faz ao forasteiro. Respondo agora: Sim, eu gosto do Chile; eu estava me acostumando com o Chile. Não será um fato raro; tenho carinho por muitas cidades, me comovo à toa pensando numa rua de Cachoeiro, numa ponte de Paris, numa fonte de Roma. E me acostumar até hoje só não me acostumei com cadeia." ( Esquina p. 27)

                                                                         *** 

" Não estou apaixonado; meu comércio sentimental com as outras criaturas corre normal, com suas alegrias e tristezas. Não estou apaixonado, mas posso ver a face da Paixão. E por um instante fico parado, mudo, como quem ouvisse, no fundo da noite, o sussurro das estrelas, e o reconhecesse." (A presença p.31)

                                                                         ***

" A mocidade pode viver nessas alegres barracas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste ; onde ele possa bradar, sem medo  nem vergonha, o  nome de sua amada: Joana, Joana! - certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar  de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho. (...) Casa deve ser a preparação para o segredo maios do túmulo " (A Casa p.44)

                                                                          *** 

" Porque a mulher que esta esperando o homem recebe sempre a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele." ( A Mulher esperando o homem p.61)

                                                                          *** 

" Eles jamais compreenderão que  uma pessoa não pode existir sem certidão de nascimento nem pode deixar de existir  sem certidão de óbito. Que acima da vida  e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça está esta coisa sacrossanta: o papel." ( O mundo de Papel p. 91)

sábado, 21 de maio de 2011

Helena - Machado de Assis - Parte 1

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, s/d, óleo sobre tela, 50 x 61 cm, MASP -- Museu de Arte de São Paulo


"A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume que da consistência dos afetos.  A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou ocasião de experimentar a própria têmpera¹. Se a achasse, mostraria que a tinha mediana."

"A mãe de Estácio era diferente; possuíra em alto grau a paixão, a ternura, a vontade, uma grande elevação de sentimentos, com seus toques de orgulho, daquele orgulho que é apenas irradiação da consciência. "

" As mulheres que são apenas mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-se; as que têm alguma coisa mais doque a debilidade feminina, lutam ou recolhem-se à dignidade do silêncio.

" (...) coração de velha é casa arruinada. "

" Não vale a pena esperdiçar afetos, Eugênia; sentirá mais tarde que essa moeda do coração não se deve nunca reduzir a trocos miúdos nem despender em quinquilharias."

"O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a idade de dez anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possível que uma pessoa morta voltasse à terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma coisa. Lavei o meu espírito de semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite, num cemitério... E daí talvez não: os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um só rumor de vida. "


"A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros."

"A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos que a natureza e a fortuna
podem oferecer à contemplação do homem."

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16940



¹Integridade, austeridade de princípios.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Grande Sertão: Veredas - Parte 2




"Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma.. Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocaso de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privigios, invarvel. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho¹!"

Todo mundo é louco e o que cura a loucura e perdoa os pecados de um  Jagunço é a  religião. PERFEITO!  
 
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"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais foa, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado"
Pois bem, é perigoso mesmo! Mas quero adentrar na significação da ultima frase: concertar com C = Preparar em comum a execução de um plano, combinar, ajustar, pactuar, harmonizar. e consertado com S = 1 Emendado, corrigido. 2 Remendado, reparado.! Portanto: Todos puxavam o mundo para si, para corrigir o remendado!!!!  Sr. Rosa faz chacota das construções !!! Amo muito!!
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Sobre os atos de Deus:

"Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrio, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe², não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta...

As vezes eu não sei o que dizer!! Mas  " Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta... " pra mim refe-se ao senso de humor de Deus.

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"Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era."

kkkk

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Ditos do Sertão:
"
Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens."

"(...)o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar."

"Couro ruim é que chama ferrão de ponta."

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  "O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..."
   Nem Deus pode no sertão!!!!
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¹ Dispersar-se, fugir dispersando-se, espalhar-se.
² Espingarda curta, espécie de bacamarte; rifle. 

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão Veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2006.